Os desafios financeiros em tempos de crise

Por Patrícia Lajes - Jornalista

Por questões culturais, o brasileiro é um povo que espera acontecer para, depois, pensar no que fazer. Por isso, em épocas de vacas magras, a maioria das pessoas não sabe como reagir e se sente pega de surpresa mesmo por algo que vinha sendo anunciado há um bom tempo. Diante da crise, o excesso de otimismo tão comum ao brasileiro transforma-se em um pessimismo quase unânime, demonstrado em pesadas críticas ao governo, ao empresariado e a tudo o que afaste sua própria responsabilidade diante da situação. Colocando-se em uma posição de vítima, a nação espera por um salvador que possa fazer justiça e assegurar a estabilidade perdida.

Quem usou e abusou da oferta de crédito do passado, sem analisar sua real condição financeira, hoje se vê sem condições de honrar as “parcelinhas” que disseram caber perfeitamente no seu bolso, mas que hoje ultrapassam o orçamento. À publicidade cabia a tarefa de convencer as pessoas a “comprar hoje sem se preocupar com o pagamento” e a contraírem “dinheiro fácil e rápido”, o que, aliás, foi feito com louvor. O número de famílias endividadas, segundo o Banco Central, é o maior dos últimos 10 anos, batendo a casa dos 46,3%. Em São Paulo, esse número atinge 54,8%, segundo a Fecomércio.

Já o papel de educar o consumidor, função das próprias instituições financeiras que fornecem o crédito e do governo, não foi desempenhado com a mesma eficiência. As agradáveis propagandas mostrando clientes felizes, dançando e sorrindo nas agências bancárias, já não são tão frequentes, enquanto os comunicados de cobrança – não tão agradáveis – passaram a fazer parte do cotidiano de muitos. Mas é justamente em tempos de crise que vemos surgir outra característica do brasileiro: aquele que dá um jeitinho (no bom sentido) e dribla as dificuldades com categoria. É na crise que surgem grandes ideias, nascem empreendedores e se estabelecem oportunidades de se criar uma cultura. Cabe a cada um escolher em que time quer jogar: no dos que choram ou no dos que vendem lenços.

Vejo uma grande vantagem nesta época de menos trabalho e até de desemprego: tempo livre. Antes de dizer que agora eu é que estou tendo um excesso de otimismo, reflita comigo: o que é preciso para se pensar sobre a ideia que pode revolucionar o futuro? Ou para finalmente tirar aquele projeto, engavetado há anos, do papel? Ou ainda para repensar as finanças de uma forma mais eficiente? Tempo. Para tudo isso necessitamos de tempo e é isso que este momento proporciona.

Vivemos em um constante desequilíbrio entre tempo e dinheiro: quando estamos trabalhando, temos dinheiro, mas não temos tempo para nada; quando estamos sem trabalho, temos tempo, mas não temos dinheiro para nada. Grande parte da população brasileira está no segundo assento dessa balança e, infelizmente, não sabe como utilizar essa preciosidade – o tempo – de forma produtiva.

Há três anos, o Brasil não enfrentava essa crise, mas eu sim. Acabei me vendo reduzida a poucos clientes com trabalhos esporádicos e, o que me restou, foi muito tempo livre, coisa a qual eu não estava acostumada. Minha agenda superocupada se tornou um amontoado de páginas em branco que eu simplesmente não sabia como preencher. Perdi muito tempo pensando em como aquilo havia acontecido, questionando os motivos que teriam levado meus clientes a descontinuarem seus projetos comigo, tentando achar um culpado e, como a maioria dos mortais, reclamando da vida. Até que decidi mudar o foco.

Meu objetivo passou a ser outro: transformar aquele tempo ocioso em algo altamente produtivo. Comecei a buscar os arquivos de projetos que há muito estavam esquecidos, passei a ler as ideias anotadas em cadernos, bloquinhos e nos cantos da agenda e a reunir tudo que poderia inspirar novas ideias. Todo aquele material que havia sido deixado para trás pela correria do dia a dia passou a ser analisado com muita calma, mas com todo entusiasmo. Fiz uma lista com as coisas que gostaria de colocar em prática e comecei a pensar em formas de viabilizá-las. Claro que muitas delas esbarravam na questão financeira, pois não era tempo de fazer novos gastos, mas pude perceber que grande parte dos itens consistia em realizar coisas que me davam prazer, como ler, escrever, pesquisar e estudar – e que isso não necessariamente demandava despesas.

Fiz inscrição em cursos gratuitos, conheci pessoas interessantes e vi que estava tendo a oportunidade de criar meu futuro de uma maneira totalmente nova, inclusive começando uma nova carreira aos 40 anos. Eu finalmente estava no controle do meu próprio tempo, sem clientes para determinar o que eu tinha de fazer, como e a que horas. É claro que isso é um tanto quanto desafiador, mas é a melhor forma de se viver!

Minha profissão de jornalista havia me levado a lugares incríveis e a desenvolver projetos, matérias e artigos que sempre me deram muita satisfação, mas eu ainda não havia escrito nada por vontade própria. Não tinha tempo. Percebi que escrevia sem ser escritora, mas que, com a possibilidade do tempo livre, poderia passar a ser, de fato, uma escritora. E foi assim que nasceu um método de gestão de finanças pessoais que se transformou em blog e em livro que, em pouco tempo, tornou-se um best-seller com mais de 100 mil exemplares vendidos. Mais tarde, vieram os cursos online e as palestras por todo o país.

O segredo do sucesso está em saber equilibrar trabalho e satisfação pessoal, tempo e dinheiro. Estar empregado e ganhando o suficiente para pagar prestações é uma falsa estabilidade. Para sair da crise verdadeiramente, nossa visão deve estar muito além disso. É tempo de buscar novos horizontes, traçar alternativas inovadoras e usar o tempo da forma mais produtiva possível. Você pode se surpreender com os resultados.






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